Conto: "Uma noite em Lupanar."

Olá pessoal, me chamo Lucas Vinícius, tenho 24 anos, sou estudante do quinto ano de Medicina e moro em Natal/RN. Há pouco menos de um ano Figueroa me convidou para participar do blog como autor, mas por falta de tempo e preguiça mesmo jamais tinha publicado nada aqui, que vergonha.

   Sempre que entro de férias volto para minha terra amada Ilhéus/BA para visitar meus familiares, aproveito e tento jogar bastante RPG. Para esse verão de 2014 meu amigo de longa data Marcus Antônio, nosso antigo e  notável mestre, nos propôs jogar Tormenta RPG, mas em uma Arton datada no ano 1000, mais precisamente no continente sul, Lamnor. Teríamos que fazer então a história (ou estória, como queiram) de nossos personagens e criar fichas de nível um. Aproveitando o tempo livre e o fato de nunca nesses 13 anos de RPG ter produzido algum material bacana, resolvi escrever minha história de uma maneira diferente, em conto.
    Bem, espero que gostem pois eu gostei de escrevê-la. Quem sabe não continuo em outro conto. rs
 
PS: Só para esclarecer, meu personagem será uma maga, humana de nível um.
                                               . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Uma  noite em Lupanar

    Silvannus  Menard, esse é o nome do meu herói! Disse Calíope, em som de gozo, retirando vagarosamente suas partes molhadas do contato com o falo borrachudo do jovem humano.
 
       Calíope, uma bela jovem na casa dos vinte e poucos anos, olhos verdes, pele sardenta e cabelos ruivos, vestia apenas um robe vermelho de cetim desgastado. Levantou-se da cama com agilidade, apanhou um copo e o encheu de vinho barato, tomou um grande gole, ou fingiu que fez, e ofereceu com um sorriso safado o restante a Silvanus, que agora estava terminando de vestir suas modestas roupas de camponês.
 
     -Não meu amor, já estou me recuperando da embriaguez, preciso voltar para minha mulher antes do amanhecer. Já me bastará a dívida que farei com você hoje. – Disse ele acabando de calçar a bota.
 
     Com a mesma velocidade com que um raio cai do céu, o sorriso embriagado de Calíope desapareceu, dando lugar a um face de irritação, bastante sóbria por sinal. Olhando para Silvannus, ela se aproximou da porta e a abriu. Do meio externo se podia ouvir barulho de risos, música alta e copos quebrando, uma festa acontecia lá fora.
 
    –Dionísio querido, venha aqui por favor, parece que nosso amigo Menard já se considera  íntimo o bastante para deixar dívidas pendentes com Madame Cassandra Grimalt. Esse tolo! – Não foram precisos dois segundos para que Dionísio surgisse na porta. Tratava-se de um grande, desfigurado e gordo humano, empunhando um imenso porrete. Ele grunhiu:
 
    O que acontecer aqui senhora Calíope?  Ele já querer ser esperto? Grande erro, grande erro cometer verme. Dionisis não deixar que vá sem pagar o preço, ou sentir vai a força do meu porrete esmagar suas bolas miúdas! – Esbravejou o brutamonte, unindo com dificuldade as poucas palavras que tinha inteligência para falar.
 
     Ele está devendo duas deitadas e uma jarra do nosso vinho mais caro! – exclamou Calíope. Quer me fazer de escrava seu porco pobre? Temos mais nove putas nessa droga de puteiro, mas você resolve se fazer de esperto logo pra cima de mim?! Isso não vai ficar assim, ou você paga o que me deve ou te arranco as bolas! – Puxou uma pequena adaga dos cabelos.
 
     Calíope era a mais nova das dez musas do Bordel Lupanar. Junto a ela ainda haviam: Clio, Euterpe ,Melpomêne, Polímnia, Tália, Terpsícure, Urânia, Cila e Erato. Essa última não era de todo uma mulher, tratava-se de um pederasta halfling, mas que já mostrara a puta mais cobiçada e lucrativa do bordel, “-Erato é a mais carinhosa!” diziam seus cativos fregueses.
 
     Todas eram empregadas ou escravas da senhora do bordel e dessa haviam recebido os seus nomes estranhos; na verdade a dona renomeava todos seus serviçais desse mesmo jeito assim que os contratava.
 
     Por favor, não me entendam mal, eu vou pagar, tenho dinheiro! Quer dizer… terei! Prometo que pagarei assim que vender as batatas que colhi hoje! A safra esta tão boa que talvez consiga até passar mais uma noite aqui se quiser, eu juro! Pela vida dos meus filhos. – Menard agora se encontrava encostado a parede, quase se ajoelhando, enquanto algo escorria por entre suas pernas, molhando suas calças baratas.
 
      Mas que confusão é essa?? -Nesse momento, surgiu porta adentro uma figura pequena e estranha. Mais parecia uma menina feia de bigode e pés peludos se vestindo de mulher do que uma puta em si, algo horrível aos olhos. Tratava-se de Erato. Fazendo pose em frente a porta, com as mãos no quadril, a criatura indagou:
 
   – Mas que droga vocês dois pensam que estão fazendo? O pobre homem até já se mijou. Coitadinho dele! O que foi que houve aqui meu bom homem, diga-me. – Disse ele tentando ajudar Menard a se levantar do chão.
 
    –Ora não se meta pederasta imundo!!–Gritou Calíope. –Isso é assunto meu e dele, Dionísio já está aqui para me ajudar a resolver o impasse!
 
    É sim senhor Erato, Dionísis já resolver.– Disse o brutamontes com visível deficiência intelectual.
 
   Cale a boca trasgo!! És tão burro quanto essa vadia  que confunde como senhora. Seus gritos podem ser ouvidos lá do bar, os clientes já começam a perguntar qual o problema. Nossa Madame já nos avisou que quer discrição! Saia daqui puta estúpida, antes que eu denuncie as moedas que esconde da Madame, em meio a essas suas tetas caídas! – Disse o pequenino, em tom baixo, mas com voz ríspida, apontando para a porta, exigindo a saída de Calíope.
 
   Você sempre nos delatando, não é seu porco pederasta? Isso não vai ficar assim!! – Esbravejou Calíope, porta afora, gritando como um cão que ladra mas não morde.
 
    Vadia ousada, muito em breve quem sentirá uma punição será você! – Olhando para o grandalhão, Erato perguntou: -E você, vai se atrever também? Já se esqueceu dos dez dias que Madame lhe fez sofrer no poço?
 
    O grande homem de rosto deformado por cicatrizes arregalou seu único olho sadio e recuou alguns passos, pensando em algo que pareciam ser lembranças nada agradáveis… Não meu senhor, não. Dionise ser seu servo, Dionise ser servo obediente!
 
    E você meu jovem, o que faremos com você? Realmente não tem moedas para nos pagar o que deve?
 
    –Não, eu tenho sim meu senhor. Terei, assim que vender tudo que colhi no dia de hoje.
 
  -Sabe meu jovem, nós somos um dos bordéis mais movimentados de Minasthar. Somos muitíssimo requisitados, no entanto só temos 10 putas para suprir a necessidade de todos esses homens. Veja bem, não é um serviço que se possa fazer “fiados”, se é que me entende.
 
    – Juro pela vida dos meus filhos e minha amada esposa como pagarei. Posso jurar pessoalmente para sua Madame se ela assim desejar!
 
    –Jovem, não é nosso costume, mas como se trata de um caso especial e você é um homem tão bem apessoado, vou te fazer essa boa vontade. Mas como você mesmo disse, minha Madame é a quem deverás fazer teus juramentos.Por sorte você se encaixa perfeitamente no tipo de cliente que ela gosta de receber em seus aposentos. Pobre, desconhecido, mas com muita boa vontade. Homens de boa  índole devem receber tratamento especial, mesmo que sejam pobres.Disse a pequena criatura, com um sorriso ardiloso de canto de boca.
 
    –Muito obrigado senhor Erato, não sei como poderei agradecer por isso. – Menard balbuciou em meio a um choro aliviado e esperançoso.
 
    Não se preocupe meu jovem, você já está me fazendo um grande favor, mesmo que não saiba. Não é mesmo Dionísio?–Olhando sorridente para o grande homem. Vamos sua lesma, ainda não entendeu a ordem que lhe dei? Leve nosso cavalheiro aos aposentos de nossa senhora.
 
    Mas Dionisis precisar mesmo ? – Disse o desfigurado, com medo em sua voz.
 
    Não seja estúpido, é lógico que você precisa levá-lo. Ainda tenho muitos clientes para atender aqui embaixo, além disso essas vadias estão cada vez mais insolentes, alguém precisa controlar essa bagunça. – Ralhou a pequena criatura, saindo rebolante pelo quarto.
 
   Bom, então você vir comigo homenzinho. Minha senhora gostar de te conhecer. – Enquanto puxava Silvannus por um dos braços.
                                                   . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
 
       
     
     Passando pelo salão rapidamente Menard então percebeu que a festa continuava, talvez até mais animada que antes. Aqueles homens provavelmente sequer haviam escutado a confusão, e os que ouviram já estavam tão embriagados que nem lembravam mais do próprio nome. E isso lhe aliviou bastante, pois homens podem ser tão fofoqueiros quanto a mais desocupada das mulheres quando querem e tudo o que ele não queria era que sua mulher descobrisse suas puladas de cerca nos sábados a noite, já que para ela a pesca era o passatempo preferido do seu marido.
     Subiram um lance de escadas e passaram pelos quartos superiores, chamadas de “suítes”. Eram quartos um pouco mais limpos e maiores, mas nada de muito luxuoso. Todo o bordel era como uma imensa estalagem. Possuía 6 quartos térreos onde as putas menos lucrativas atendiam os clientes mais pobres, e mais 4 quartos em cima, onde os clientes mais ricos eram acolhidos. Tudo era antigo e feito de madeira nobre e escura. No pensamento de Menard aquela deveria ter sido no passado a casa de alguma família rica de Lamnor. O corredor acabava em uma grande porta preta de madeira forte e nobre; ali deveria se esconder a famosa, porém jamais vista, Madame Cassandra Grimalt. Quando se deu conta Menard já se encontrava  a pouco menos de um metro da porta, mas o brutamontes havia ficado para trás. Daqui já não se podia ouvir o som da festa abaixo.
 
   Não olhar para mim vermezinho, só você precisar entrar, Dionisis não precisar. Entrar antes que Dionisis esmague. – Ele falava da escadaria em um tom baixo, mas audível. Seu rosto demonstrava medo e fúria ao mesmo tempo. O que causou por um segundo calafrios em Menard.
 
    Silvannus então bateu na porta levemente. Silêncio. Bateu novamente. Silêncio. Resolveu bater com mais força, pois talvez a mulher estivesse dormindo, cansada após dormir com tantos homens. Dessa vez o som foi alto suficiente para ecoar pelo corredor. Ele repensou se fez o certo. Algo se moveu lá por dentro; ouviu-se um rangido.
 
   Pode entrar meu querido, a porta está aberta. – Em um click  a porta se destravou, deixando uma pequena fresta do quarto à mostra.
 
     Silvannus Menard olhou para trás, mas o grandalhão já não estava na escadaria. Ele reluta por um segundo, mas lembrou-se de que ainda precisa negociar sua divida idiota. Esse vício por raparigas ainda iria lhe meter em enrascadas algum dia, pensou ele ao entrar pela porta.
                                                      
                                                 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
 
     Ao entrar, Menard percebeu, mesmo com a pouca luz, que aquele quarto com certeza era o maior e melhor do Bordel, tão grande que mesmo sua casinha caberia inteira dentro dele. O ar ali dentro era abafado e pesado, cheirando a incenso e fumo. As paredes eram todas cobertas com um tipo especial de papel vermelho, cor de sangue, que ele nunca tinha visto, mas imaginava que fosse algo caro e sofisticado. Pregados nessas, sete quadros exibiam a figura de uma senhora bastante elegante, apesar de muito idosa.
 
     Alguns deles pareceram ao nosso herói um pouco antigos demais, o que não fazia sentido, já que a senhora era a mesma em todos os quadros, tanto nos mais velhos e borrados, quanto nos mais novos. Mas isso podia ser apenas uma ilusão causada pela pouca luz.
 
     O cômodo estava iluminado apenas com três velas em um castiçal, apesar dele ter contado mais dessas, espalhadas pelo quarto, agora apagadas. No chão, um belo tapete se estendia e nesse dois gatos pretos repousavam arrogantes. Observando mais atentamente, Menard percebeu que no quarto existiam muitos gatos, talvez mais de dez, das mais variadas cores e raças.
 
    Quanto aos móveis, apenas cinco podiam ser vistos, uma penteadeira com um espelho enferrujado embutido, uma cadeira velha encostada a parede, um luxuoso roupeiro de madeira, e uma grande cama de casal coberta com cobertores refinados. Próxima a única janela do quarto, uma cadeira de balanço se movia ritmada para frente e para trás, mas de costas para o entrada no cômodo.
      Na cadeira, uma velhinha parecia costurar crochê enquanto fumava um cachimbo estranho e alongado.
 
   Boa noite minha senhora. Não gostaria de lhe incomodar, pois inclusive já tratei do assunto com vosso serviçal e ele concordou em…
 
   –Nenhum dos meus empregados se envolve em meus negócios meu jovem. – Interrompeu a velha. Sua voz era forte e ríspida. –Afinal eu sou a dona, não é mesmo? –Voz calma e amena.
 
    Algo grunhiu apavorado abaixo da cama e se moveu rapidamente para o lado oposto dessa, para longe da cadeira da senhorinha. Menard se abaixou um pouco e percebeu que, por entre a escuridão, dois olhinhos reluzentes se escondiam de medo, se espremendo próximo a parede.
 
     -Oh não se preocupe jovem, esse é meu amiguinho Gorkk, um pequeno goblin ardiloso que encontramos roubando na despensa quatro dias atrás. Estão cada vez mais ousados essas criaturinhas, concorda comigo? Cada dia surgem mais e mais! Os deuses devem ter aberto a porta de sua latrina aqui por perto. – Disse a velha com sorrisinhos abafados. Sua voz agora era doce e aconchegante, como a voz de uma avó devia ser.
 
     Após ouvir as palavras da velha, Menard percebeu que em um dos pés da cama uma fina corrente de prata estava amarrada; provavelmente era isso que mantinha o goblinóide cativo.
 
    -Vamos meu jovem, pare de se preocupar com esse vermezinho de esgoto que só faz saquear, e pegue um pouco de chá para nós dois, o cheiro está maravilhoso!
 
    Ele não conseguia sentir nada, o quarto estava mergulhado em uma neblina espessa de incenso e tabaco. Menard olhou ao redor, procurando o tal chá, mas nada encontrou.
 
    Atrás de você, mocinho, na penteadeira. Gosto sem mel, mas sirva-me como preferir. Não sou dessas velhas ricas presas a regras de etiqueta.
 
   -Ah, muito grato minha senhora, mas não estou acostumado a essa sofisticação. – Gaguejou ele, nervoso.
 
   -Mas você vai tomar. – Disse ela, sorrindo. A cadeira dela agora se encontrava virada para a frente do cômodo, Menard não sabia como, e a velha senhora o encarava, o rosto oculto em sombras, apenas os olhos a luzir.
 
    -Pegue o chá atrás de você, encha duas xícaras, com delicadeza para não molhar meu móvel, tome um gole generoso e traga a outra para mim. Certo? –Dedinhos mexendo, apontando o chá.
 
     Menard realmente não desejava tomar aquele infusão, na verdade mal sentia seu cheiro, estava nervoso demais para comer ou beber qualquer coisa, mas com as palavras estranhamente gentis da senhorinha uma vontade repentina de provar aquela delícia lhe surgiu. Não custava nada provar, não é mesmo?
 
     Aproximou-se da penteadeira, abriu a jarra de prata e aproximou a narina do vapor que subia, mas nada sentiu, estranho. Serviu o liquido inodoro com cuidado, como sua senhora havia lhe solicitado. Aproximou uma das xícaras mais uma vez de suas narinas, mas sem efeito. Então bebeu como lhe fora pedido. Mais uma surpresa, aquilo de nada tinha gosto. Imaginou que talvez estivesse bebendo água, talvez alguém tivesse esquecido das ervas, concluiu ele. Com uma xícara em cada mão levou a outra a sua amiga. Nesse momento ele finalmente pôde ver melhor a figura misteriosa.
 
      Pelos Deuses, era apenas uma senhorinha, por volta dos setenta anos ou mais. Pra quê tanto temor? Ela costurava um imenso crochê que lhe cobria as pernas finas. Seus cabelos brancos estavam presos por uma varinha de madeira em um grande coque. A pele era branca, mas coberta por muitas manchas senis. Vestia uma roupa muito elegante, em suas orelhas grandes brincos cravejadas em joias se exibiam, mas não menos encantadores eram os anéis e o imenso colar que ela ostentava em seu corpinho magro e frágil. Ergueu então as mãos para pegar a xícara que lhe era oferecida.
 
     Nesse momento: clareza. Como era possível? As agulhas de crochê continuavam a se mexer e costurar freneticamente mesmo sem as mãos da velha para guia-las. Bruxaria! Dois passos para trás.
 
    Olhe para mim! – Disse a Madame, com voz ríspida.
 
    Ele ainda não havia percebido, mas os olhos dela eram verdes, belos como uma esmeralda. Mas estavam se apertando levemente, e sua face parecia irritada. A sensação, porém, passou rapidamente. Ela não poderia estar irritada, afinal, éramos amigos, antigos amigos…
 
     -Você é bastante relutante para um camponês, sabia? Ora sente-se! – Ordenou. Uma cadeira velha se moveu sozinha, batendo nas pernas de Menard por trás, forçando-o a sentar. Mas os olhos verdes dela eram tão lindos que mereciam melhor atenção.
 
     As agulhas pararam de costurar e caíram sobre o pano. Com uma mão ela segurou a xícara, na outra o cachimbo.
 
    -Verme, venha aqui e pegue a porcelana antes que esse idiota a quebre. – Disse a velha em uma língua não humana, mantendo seu olhar fixo em Menard e soltando a tragada do fumo.
 
     Apesar da ordem em língua estranha o pequeno ser que se escondia por debaixo da cama pareceu entender muito bem. Saiu da escuridão um tanto relutante, seus olhos amedrontados e frenéticos. O corpo esquelético tremia de medo, em sua pele cortes profundos tentavam cicatrizar inutilmente. Pegou as xícaras das duas mãos com muito cuidado, as depositou sobre a penteadeira e novamente correu para debaixo da cama.
 
     Ainda olhando nos olhos de Menard, ela cuidadosamente ergueu o braço na altura da sua cabeça e retirou  a varinha presa em seu cabelo. Ficou óbvio que aquilo não era um mero prendedor de cabelo; possuía aproximadamente vinte centímetros e era todo entalhado com escritas em uma língua desconhecida para o pobre camponês. Ele enxergava, ouvia e sentia tudo ao seu redor, mas seus pensamentos…Ahh seus pensamentos… Só conseguiam focar naqueles lindos olhos verdes.
 
     A velha apontou a parte mais fina da varinha para os lençóis e eles se moveram ferozmente, amarrando as mãos e pés de Menard na cadeira, com força. Dor. Ele esqueceu os olhos, mas se viu amarrado em uma cadeira velha por panos de cetim. A sua frente, a velha sorridente.
 
    – O que você esta fazendo mulher?! -Gritou o homem irado, fazendo força contra os panos para se soltar. Me desamarre antes que eu o faça e perca o respeito por idosas! Que tipo de fantasia doentia deseja fazer pra selar esse maldito acordo?
 
    -Acordo? Do que está falando meu caro? Em momento algum disse que selaria algo com você. Pobretões como você só me tem uma finalidade.
 
    -Do que está falando velha louca, me solte! Tenho uma esposa e duas filhas para criar!!
 
    -Ah sim, todos eles tem. Sabe,eu sinto cheiro de mentira a léguas, e você é um deles. Um mentiroso, aproveitador. Aposto que a coitada da sua esposa está em casa cuidando de suas filhas, enquanto imagina que você, o bom marido, está caçando alguns cervos, não é mesmo? Ou seria…deixe-me ver… pescando! Sim, pesca faz mais o seu tipo! – Sorria enquanto finalmente se levantava.
 
    -Você não sabe nada sobre mim bruxa! Quando eu sair daqui vou te queimar em uma fogueira junto com suas putas dentro desse bordel fedido a merda!!! – Praguejou Menard, cuspindo de ódio.
 
    -Ora, ora, ora, vejamos quem está se revelando. Não meu caro, essa velha aqui você jamais irá ver arder no fogo de uma fogueira, muito menos a sua. Vamos, cale essa sua língua imunda antes que eu a corte como fiz com nosso amigo Gorkk  aqui. – O goblinóide se mexeu amedrontado sob a cama.
 
    -Você acha mesmo que pode me torturar e ninguém vai te achar?? Sou bastante conhecido no meu vilarejo velha, assim que amanhecer minha mulher sentirá minha falta e virão a minha procura. Temos cães de caça, eles vão me achar! Vão te pegar e te queimar puta velha! – Um forte tapa ecoou.
 
    -Nunca repita isso!! Qual esposa virá te procurar seu verme? Aquela que você trai todos os sábados? Aquela que acha que você está pescando?? Ora não seja ridículo, não me ameace com palavras vazias, cachorro algum se atreveria a se aproximar daqui. Animais, diferente de humanos, sabem o que temer. – Disse a velha espremendo suas unhas sobre a face do homem.
 
    -Eu vou te matar vadia! Eu vou arrancar esses seus olhos malditos!! –Esbravejou tentando se soltar da cadeira.
 
    Vê esses quadros na parede? O mais velho deles tem 350 anos e o mais novo 50. Acha mesmo que pode fazer algo contra mim camponês? Acha mesmo que sentirão sua falta? Acha mesmo que sairá daqui com vida? – Sorriso.
 
     Pela primeira vez Menard observou de verdade a velha, pela primeira vez ele percebe que estava diante de uma criatura perigosa. Seu corpo começa a parar de responder, já não sentia os seus braços e pernas. Ele tenta xingar mais uma vez a velha, mas sua língua também já não respondia aos seus comandos. Seus músculos doíam como se facas lhe adentrassem vagarosamente, mas nem gritar ele conseguia. Que tipo de medo é esse?? Pensava ele. Em sua frente a velha, em pé, sorria.
 
    -Isso meu caro, não é medo. Não, não. Esse é o efeito do ingrediente que coloquei naquele delicioso chá  que você tomou há alguns minutos, ou você imaginou que alguém tinha esquecido de por as ervas?
 
   -Trata-se uma especiaria muito rara em Lamnor, mas abundante em minha querida horta, batizei-a de “pega-trouxa”. Criativo, não? Veja bem, 390 anos de vida precisam servir pra alguma coisa.
 
   -Percebi que você é deveras resistente para um camponês de merda, meus feitiços não iriam lhe segurar por muito tempo – A velha foi até um dos travesseiros, de lá retirou uma bolsa de couro e vagarosamente a abriu. Dentro, uma dúzia dos mais diversos utensílios perfuro-cortantes, ainda sujos de sangue.
 
     Passou a mão sobre eles e pareceu escolher cuidadosamente qual usar. Para sobre uma pequena foice, sorriu como quem revê uma velha amiga, e se virou novamente na direção do homem amedrontado.
 
    -Chega de amenidades. Uma velha da minha idade não tem tempo a perder. – Disse sorridente, enquanto tragava mais uma vez seu cachimbo.
 
        Em sua face Menard pode ver pela primeira vez a mais pura maldade. Percebeu ali que aquele era seu fim. Pensou nas filhas, na esposa que havia deixado em casa para saciar sua luxúria… Pediu aos Deuses que as protegessem.
 
    – Ah mas não se preocupe meu caro, faço questão de manter toda a família unida.
 
      Pânico.
                                              . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
 
       De dentro do porão escuro onde agonizava há dias, Silvannus Menard escutava gritos. Mas dessa vez eles não vinham dos seus companheiros de masmorra. Os gritos e explosões vinham do bordel. Mas ainda era dia, o puteiro jamais abrira tão cedo, pensava. Concluiu que algo muito grave devia estar acontecendo.
 
      Os gritos das putas cessaram.
 
      Passos fortes subiram as escadas velhas, fazendo-as ranger. Eram muitos. Eram homens.
 
      -Abra bruxa, A Ordem de Hedryll ordena que se revele, abra ou derrubaremos esse prostíbulo e te enterraremos aqui junto com suas vadias!! – Dizia uma voz grave e imponente.
 
      Silêncio.
 
      Uma forte explosão estrondou. A pesada porta de madeira caiu ao chão.
 
      Menard tentava reunir forças para gritar por socorro, e o fez por alguns segundos, mas a sangria da bruxa o deixou deveras enfraquecido. Seus olhos se fechavam e ele mais uma vez se sentia apagar.
 
      Estrondo, clarão, força… Pouca, mas suficiente abrir seus olhos. Em sua frente um jovem vestindo mantos brancos tentava soltá-lo, enquanto mais homens de branco pareciam chegar no porão.
 
     Caminhava vagarosamente, mal conseguia por seus pés no chão. O jovem o ajudava a caminhar.
 
     –Força meu bom homem, nós vamos tirá-lo daqui. O mal já se foi.
 
     No salão do bordel, onde outrora Menard flertara, apenas sangue.
 
     Espalhados pelo chão os corpos queimados das dez musas de Lupanar.
 
    Já do lado de fora,ele olha para trás pela última vez, o bordel rangia em chamas e uma escura fumaça subia aos céus por quilômetros.
 
     Nenhum sinal da maldita.
 
                                                                                                                                      
                                                                                                                              Fim?
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